Vladimir Alexei
Em tempos de Inteligência Artificial
(IA), alguns temas do passado assombram o presente motivados pelo poder sombrio
da matéria, deixando rastros de que a Doutrina Espírita pode ser um instrumento
poderoso também para o materialismo.
A Ciência Moral Espírita (CME) ou o
Evangelho Redivivo (ER) – acreditamos que esses dois públicos possam ser
alcançados por essas reflexões – perde espaço a passos largos no movimento de
divulgação doutrinária. Perde espaço para quem ou para o que?
Perde espaço para ações que nem de
longe apresentam o sentido de divulgação do trabalho desenvolvido por Allan
Kardec – a Doutrina dos Espíritos. Nesse momento o objeto da discussão é o
trabalho de Allan Kardec, com todo respeito aos trabalhos clássicos e os que
vieram após Kardec.
Não se erige um edifício sem bases
sólidas matematicamente analisadas para sustentar o peso dos desafios que a
vida promove para o aprimoramento espiritual. Alguns calculam, outros conferem,
corrigem e validam os cálculos para que a obra possa ser desenvolvida com o
rigor necessário para sua aplicação prática corresponder aos cálculos teóricos
empreendidos.
O Espiritismo não é, ou não deveria
se transformar em espetáculo e nem mesmo sobreviver da divulgação onerosa de eventos
e instituições. A
simplicidade do espaço cedido no próprio lar para iniciar os estudos e análises
dos fenômenos observados por Allan Kardec, se perdeu quando o homem entendeu,
mais uma vez, o poder que o pensamento religioso convencional provoca
nas pessoas.
As lideranças que conduzem esses
eventos já pararam para pensar, por um momento, que seu papel seria exatamente
frear esses impulsos megalomaníacos que remetem a eventos e convenções de
religiões tradicionais que aprisionam mais do que estimulam a educação? Afinal,
nas obras de Allan Kardec está claro que o esforço voluntário para
dominar tendências más é de suma importância para o autodesenvolvimento.
Quer dizer então que um Congresso
Espírita é uma ação má?
Vamos melhorar a pergunta para se
compreender a amplitude da questão: é possível desenvolver um Congresso onde o
menos favorecido na sociedade tenha acesso livre a conteúdos que, teoricamente,
são edificantes e sejam acolhidos com a mesma fraternidade daqueles que usufruem
momentaneamente de condições socioeconômicas para honrar com os custos de
inscrição no congresso, traslado entre cidades (origem – destino – origem),
hospedagem e alimentação em horários fora do congresso?
Se não houver possibilidade de
incluir todos, sobretudo os menos favorecidos, qual o objetivo do Congresso?
Palestras, conferências, rodas de conversas, atividades artísticas, espaço para
encontros e reencontros restritos ao mesmo grupo com qual fim? Qual a sua
utilidade?
Até a divulgação pela internet alguns
congressos restringem, de maneira que, só têm acesso os que são cadastrados ou
contribuem com algum tipo de mensalidade, evidentemente, sem generalizar.
Por incrível que pareça, para os
menos favorecidos sobram vendas de produtos pelas redes sociais, a preços
“módicos”, como produtos devocionais. A Doutrina Espírita não é
contemplativa. A Filosofia Espírita tem como base a fé raciocinada. Não
se compreendem as leis que regem a vida e o viver de maneira contemplativa. O
ser não se transforma de forma passiva pois esse é o foco de uma ação
“devocional”.
Devocional remete a ideia de rituais.
Rituais de leitura, rituais de rezas, preces ou orações, ainda que seja estudando
algum conteúdo espírita, que diga-se de passagem, pode conter a interpretação
de alguém e aquilo se tornar uma verdade absoluta, substituindo a fé
raciocinada empreendida por Allan Kardec por ideias atravessadas, já que pode
faltar o conhecimento dos princípios doutrinários.
De onde surgem essas ideias
devocionais, uma vez que não são gratuitas ou são apresentadas, de acordo com
os mecanismos de marketing digital da atualidade? Com pacotes “iscas” gratuito o
algoritmo apresenta o conteúdo ao usuário de acordo com suas curtidas
(ou “likes”) para, em seguida, fazer com que o indivíduo consuma o
produto. Ele consome o item gratuito que é uma introdução. Contudo, se não
consumir o próximo passo ou o próximo serviço, ficará com um conteúdo incompleto,
sem continuidade e, portanto, sem sentido. Pronto. O marketing digital com suas
propagandas e inserções movidas pelo algoritmo, criou uma necessidade
que nem existia no indivíduo que se vê agora em uma encruzilhada: ou consome e
paga o a unidade de conteúdo ou fica sem saber como termina o estudo.
Claro, isso tudo depois de fornecer
seus dados pessoais como endereço, telefone, e-mail e outros detalhes, de
maneira que, informações correlatas continuarão aparecendo até que a pessoa
interrompa aquele tipo de serviço digital que prontamente será substituído por
outro, pois é assim que o Instagram e outras redes sociais funcionam, ou
encerre suas atividades em redes sociais, algo que pode ser bom.
No passado, primeira metade do século
XX, os Congressos eram espaços para apresentação de teses e trabalhos empíricos
desenvolvidos nas casas espíritas, algo que se assemelhava ao ambiente dos
Congressos acadêmicos onde se debate, discute e comenta o avanço (ou não) da
pesquisa em determinada área do conhecimento.
Congressos são marcos importantes
quando conseguem despertar o sentido do pertencimento. Como proporcionar
pertencimento aos que precisam e que não possuem recursos para pertencer?
Embora a sociologia das religiões –
uma área do conhecimento externa ao Espiritismo, mas oportuna para a reflexão –
aborde que é necessário e até importante a realização de eventos para a
continuidade daquele conteúdo, como forma de ocupação de espaços cada vez
maiores para fixar balizas do conhecimento daquilo que se divulga, a teoria
parte da premissa de que o evento é para compartilhar o conteúdo religioso. No
caso em análise, a premissa não é clara, e nem muito menos os objetivos, embora
os congressos tenham, em tese, claro seu propósito ou pelo menos slogan daquilo
que será divulgado. Contudo, o conteúdo tem um apelo dogmático, por diversos
prismas, e distante do que poderia ser doutrinário, seja na forma ou no fundo
(essência).
Os congressos, na atualidade, reúnem
pessoas que se tornaram conhecidas – sem muita convicção –, pelo trabalho de
divulgação espírita ou profissional, não sabendo ao certo o que veio primeiro.
Ou ainda, reúnem pessoas que trocam favores entre si com o objetivo de
fortalecer aquele segmento de informações e veiculações de produtos outros,
desenvolvidos pelos parceiros, visando, sempre, o trabalho de divulgação da obra.
Não se sabe sempre a qual obra os
congressos apoiam e nem nos interessamos em saber dos autores que dedicaram
tempo e recurso para desenvolver produtos devocionais no meio Espírita,
tornando ainda mais o Espiritismo parecido com as religiões convencionais, em
um recrudescimento grotesco dos propósitos e objetivos doutrinários. Contudo, é
bom saber que existem pessoas que não consomem esses produtos, não participam
desses congressos e observam, esses movimentos, com estranheza pois é sinal de
lucidez, entender que alguns caminhos levam a multidão para a porta larga,
enquanto se esforça o indivíduo para encontrar a porta estreita do
desenvolvimento pessoal à luz da Doutrina Espírita.
A pandemia que assolou a humanidade
apenas embotou, no espírita congressista, o desejo por validar seu egoísmo e as
vaidades que locupletam sua personalidade na vida presente. Pobre do indivíduo
que não consegue abafar os clamores do egoísmo e tornar seu trabalho digno do
consumo de todos, afinal, o trabalho maior é dos Espíritos. “Vaidade das
vaidades, tudo é vaidade” (Eclesiastes, 12:8).

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