Vladimir Alexei
Para todo argumento que evidencia as idiossincrasias do
movimento de divulgação espírita, surge um contra-argumento — na maioria das
vezes religioso e, em tantas outras, sem base alguma.
A internet abriu um leque infinito de oportunidades para a
divulgação doutrinária. É possível, inclusive, que os meios convencionais, como
cursos e encontros presenciais, passem a ter sua eficácia questionada. Contudo,
essa liberdade trouxe excessos. Existem canais cujo conteúdo resume-se a
apontar erros alheios, focando especialmente em divulgadores que geram mais
"ibope" (likes). É uma posição tentadora: do conforto do lar,
com tempo para editar e confrontar obras de Kardec, o crítico passa para os
incautos a imagem de um baluarte da doutrina. Mas restaria saber: diante de uma
plateia real, entre encarnados e desencarnados, esse crítico manteria a mesma
habilidade ou estaria livre de erros?
O problema é que tais canais pouco contribuem, pois apenas
escancaram interpretações subjetivas e pessoais. Tentar mudar palestrantes e
blogueiros é um erro quase doutrinário; eles já são conhecidos pelo que
entregam.
No outro extremo, vemos casas espíritas geridas com "mão
de ferro", onde toda decisão — da reforma do telhado à nova tarefa — é
pautada em "orientações dos Espíritos". Embora digam que a decisão
final é dos encarnados, criam um ambiente de insegurança onde todos aguardam
sinais místicos para agir. Há casos de interpretação de sonhos que fariam Freud
rolar no mundo espiritual. Questiona-se: o propósito nobre de construir ou
ampliar justifica essa dependência mediúnica para questões administrativas?
Recentemente, entre 2025 e 2026, acompanhamos polêmicas sobre
a mediunidade. É curioso notar: a maioria dos que ditam regras sobre o tema não
são médiuns, não estudaram a fundo ou sequer leram O Livro dos Médiuns.
Por outro lado, há quem conheça a letra da obra, mas não conseguem acrescentar
em vivência, porque como indivíduos conhecem, mas como membros de um time, se
perdem.
O ponto central é o excesso. A divulgação do Espiritismo,
para muitos, tornou-se uma profissão: coaches financeiros, médiuns
cobrando por "cartas do além", palestrantes que misturam o Evangelho
com autopromoção profissional e o uso persistente dos Espíritos para validar
agendas políticas. Como dizem os especialistas: todo excesso esconde uma falta.
Há uma inversão clara de valores. A ordem natural deveria
ser: aprender (como fez Ernesto Bozzano), internalizar, transformar informação
em conhecimento e, só então, divulgar. Como diria a máxima: "Pregue o
Evangelho; se for preciso, use palavras".
Infelizmente, vemos a era do "espírita polímata".
Autoproclamar-se ou aceitar tal título — ostentado por gênios como Da Vinci ou
Santos Dumont — revela uma falta de autocensura e de humildade. Onde vamos
parar? Médiuns cobrando por consolo e divulgadores em pedestais de vaidade
combinam com o que o Espiritismo ensina?
A "Luz" tem sido ofuscada pela névoa densa da
ignorância e do personalismo. Não se trata de julgar a moral alheia, mas de um
pedido de atenção. Precisamos rever o planejamento de nossas casas e programas.
Falta humildade. Nem tudo o que é "bem produzido" é feito na luz;
muitas vezes, é apenas a sombra projetada de quem busca os holofotes, mas
esqueceu-se da transformação interior.
O movimento espírita não ficou "bagunçado" após a
pandemia; ele enfrenta desafios de sustentabilidade desde que saiu das mãos de
Kardec. Frequentemente criticado por suas origens nas elites francesas, o
Espiritismo sobreviveu graças ao prestígio de quem o abraçou, mas hoje o
cenário é outro. O meio está repleto de intelectuais que estudam a fisiologia
da glândula pineal, mas ignoram o aspecto moral da doutrina, tratando-o como
algo de foro íntimo e interpretativo.
A conta chegará para todos nós que batemos no peito
dizendo-nos espíritas, mas que praticamos a doutrina mais para os outros do que
para o nosso próprio aperfeiçoamento. Divulgar o Espiritismo sem iluminar a
própria sombra é carregar o peso de respostas que não se vivem. Ninguém é
missionário sozinho. Trabalhar em conjunto não é buscar consenso absoluto, mas
unir diferentes aptidões para, coletivamente, travar o "bom combate".

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