Vladimir
Alexei
É
comum no meio espírita, ler que, quando um autor utiliza as obras da
Codificação como âncora para seus argumentos, invariavelmente se torna um
crítico contumaz de outros trabalhos, sobretudo aqueles ditos mediúnicos. No
entanto, vamos tentar desmistificar esse ponto e mostrar que os temas
doutrinários são muito mais imbricados do que supõem aqueles que utilizam um
olhar superficial para analisá-los.
Supor
que divergir de Allan Kardec ou André Luiz seja o equivalente a opor-se ao
Espiritismo, cada um ao seu estilo, pressupõe que a razão habita apenas a mente
de quem pensa assim. É oportuno esclarecer que os autores possuem abordagens
com inclinações diferentes. Nesse momento, apenas tentamos chamar a atenção
para uma camada mais substancial.
Allan
Kardec construiu uma Ciência de observação cuja epistemologia pode ser
compreendida pelo Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Os critérios
científicos para se aceitar uma hipótese ou não, foram largamente relatados nas
Revistas Espíritas. A Ciência Espírita, embora existam poucos trabalhos nesse
sentido, está alinhada aos pressupostos da Filosofia da Ciência moderna,
sobretudo em trabalhos de Karl Popper e Thomas Kuhn, cujo detalhamento ficará
para outra oportunidade. Só nesse ponto já teríamos muito o que debruçar para
aprofundar pois aplicar os mesmos critérios utilizados por Kardec e tentar
aprimorar algo seria científico, embora não trivial.
Por
outro lado, o trabalho de André Luiz nem tangencia a superfície do que
construiu Allan Kardec em termos científicos porque são abordagens diferentes.
André Luiz não criou uma ciência, poderíamos dizer que analisar o trabalho de
André Luiz sob as lentes da etnografia, método científico utilizado pela
Antropologia para descrever modos de vida, crenças, práticas e outros seria
interessante. O desafio é que esses modos dizem respeito ao plano terreno e não
espiritual...
André
Luiz narrou o mundo espiritual com a coerência de tudo aquilo que Allan Kardec
construiu. E sua narrativa só foi possível graças ao conhecimento trazido por
Allan Kardec, por isso não se trata de comparar e nem depreciar nenhum
trabalho, mas entender que, enquanto um construía conceitos, métodos e
pavimentava uma nova ciência, o outro utilizou-se desses recursos para trazer
as experiências do “lado de lá”.
O
trabalho belíssimo de Chico Xavier, consequentemente, não se trata de uma
continuação ipsis litteris do trabalho de Allan Kardec e sim do esforço
de apresentação da vida no mundo espiritual, algo que, sem a Ciência Espírita
seria muito difícil compreender de forma racional. Sem estudar as obras de
Kardec, Chico Xavier teria dificuldades. Se levarmos esse tipo de estudo a
efeito, observaremos que André Luiz apresenta pontos do mundo espiritual que se
confirmaram no futuro e outros não.
Allan
Kardec fornece axiomas de uma filosofia primária, delimita a ontologia quando
define o que é o “ser”, “Jesus”, “leis morais”, dentre outros. Sem essas bases
não teria como construir o edifício doutrinário. Sob outro ponto de vista,
André Luiz estuda o fenômeno em movimento, ou seja, Kardec conceituou, André
Luiz trouxe exemplos de como funciona e entender que são abordagens diferentes
é importante para compreender que o trabalho de Allan Kardec é inigualável e
isso não é retórico, nem muito menos motivo para entender-se que há intenção em
diminuir o trabalho do outro.
A
abordagem é delicada porque utilizar, na mesma expressão, o nome de Allan
Kardec e o de André Luiz como no título dessa reflexão, pressupõe “polêmica”,
embora seja necessário fazer perguntas que incomodam, senão vejamos:
-
Alguém já levantou a hipótese a respeito da possibilidade de algum erro
encontrado em André Luiz ter ocorrido em função do trabalho construído por
Allan Kardec, ditado pelos Espíritos Superiores?
Antes
que soltem Cérbero, não se trata de uma reflexão em busca da “pureza
doutrinária” em ambos os autores. Já existe muita coisa por aí nesse sentido.
Trata-se de uma tentativa de se ampliar as considerações em um tema que tem
sido tratado de maneira pouco proveitosa. É preciso mudar a abordagem e a
discussão sobre temas polêmicos que podem produzir conhecimento.
Até o
presente momento (2026), tudo aquilo que a Ciência demonstrou ser diferente do
trabalho desenvolvido por Allan Kardec, ocorreu enquanto matéria. Então, nesses
casos, por que os Espíritos Superiores não revelaram como realmente funciona?
Os Espíritos Superiores erraram ou não erraram? É mais complexo do que isso.
Os
Espíritos Superiores trouxeram informações condizentes com a época. Se a
Ciência na época de Kardec utilizava a expressão éter para definir o que
existia entre os “planetas”, por exemplo, se passassem a utilizar a palavra
gravidade como fez a partir de Albert Einstein, que mérito haveria no trabalho
científico material? Quais seriam os valores da ciência no mundo terreno se, a
quaisquer dúvidas, bastaria consultar, evocar os espíritos superiores e eles,
como em um passe de mágica, revelariam todas as verdades?
É mais
importante estudar a Doutrina Espírita com o propósito de aprender do que de
buscar possíveis erros de forma dogmática. Procurem erro utilizando método
científico e perceberão que o erro é um degrau na construção do conhecimento.
Os
Espíritos Superiores não construíram a Doutrina dos Espíritos para validar um
pensamento material, transitório e sim para revelar aquilo que o mundo maior,
espiritual, tem de mais importante e que Allan Kardec tratou com muita
propriedade: o aspecto moral. Esquadrinhemos as obras espíritas, mas tenhamos
como premissa a moral. Fora desse ponto nos afastamos de forma infantil daquilo
que importa. O trabalho de Allan Kardec inaugura uma nova ciência: não a
Ciência Espírita como se tornou conhecida, mas a Ciência Moral Espírita, se é
que poderíamos utilizar essa expressão sem sermos lançados à fogueira.
A
implicação do entendimento sobre o aspecto moral também é progressiva. Cada
época tem sua abordagem de acordo com a capacidade cognitiva e as ferramentas
tecnológicas adequadas para compreender o que se passou – dois pontos
importantes ficam para nossa observação: limitação da linguagem humana e
limitação mediúnica. Vejamos um exemplo.
A
origem da “Inteligência Artificial”, por exemplo, data do período pós segunda
grande guerra, por volta de 1950, no entanto, só foi possível implementá-la no
século XXI. Acontece, porém, que é possível perceber na obra de André Luiz
vestígios do que estamos vivendo hoje com o aprendizado de máquina.
André
Luiz na obra Evolução em Dois Mundos, no capítulo IV da primeira parte, fala
sobre “Automatismo e Perispírito”. No que diz respeito ao automatismo, é
possível identificar a evolução humano-espiritual por meio da automação de
processos: “O princípio inteligente, no curso de milênios... automatizou os
impulsos da vida... organizando os centros de força que passariam a funcionar
como comandos automáticos da mente...”.
Compreende-se,
sem muito esforço e nem pirotecnia, por exemplo, que André Luiz faz alusão a
funções vitais como respiração, batimento cardíaco e reflexos que um dia podem
ter sido decisões da alma. A alma “pensava” para fazer a respiração e outras
funções vitais. Talvez hoje seja difícil perceber e até acreditar (crer é de
cada um e não estamos propondo violar a crença de ninguém) que esse fenômeno
pudesse ser algo “pensado”. Traçando um paralelo com o aprendizado de máquinas,
o que a mente fez foi “escrever um código” de maneira que aquele fenômeno
passou a ser algo automatizado, sem precisar do pensamento para funcionar.
Temos ideia de como o Espírito escreve um código, entretanto, talvez seja um
tema para se estudar no futuro.
Na
linguagem da Tecnologia, o programador treina as redes neurais exaustivamente
até que o algoritmo execute tarefas de alta complexidade de forma totalmente
automatizada. Quando estudamos, pela primeira vez, a obra Evolução em Dois
Mundos, nos idos de 1990, nem internet existia, logo, além da ausência de
conhecimento maior, não possuíamos recursos tecnológicos suficientes para
conseguir fazer esse tipo de interpretação. Isso significa dizer que não
estudamos? Claro que não. Significa dizer que o progresso é um constante
descortinar de informações que estão sujeitas às possibilidades de compreensão
de cada um. Por isso, na prática, sabe-se que a Doutrina Espírita é
progressista.
Agora
vejamos em Allan Kardec, no livro A Gênese, quando se fala sobre a Uranografia
Geral. O Espírito Galileu narra, no item 26 do capítulo IV, a respeito dos
Satélites: “Alguns não deram origem a nenhum astro secundário, como se verifica
com Mercúrio, Vênus e Marte, ao passo que outros, como a Terra, Júpiter,
Saturno, etc. formaram um ou vários desses astros secundários.”
Pouco
tempo depois, para ser mais preciso, em 1877, o astrônomo Asaph Hall descobriu
dois satélites naturais de Marte: Fobos e Deimos.
Galileu
errou? Justo Galileu que viveu à frente do seu tempo quando encarnado? No senso
comum: errou. No estudo doutrinário: ele informou aquilo que era do
conhecimento corrente da Ciência e de acordo com a capacidade do médium.
Se há
erro, quer dizer que as obras da Codificação estão erradas? Com base no que
trouxemos nessas ligeiras reflexões, é possível inferir que o que existe de
“erro” é uma limitação didático-pedagógica que faz parte do arcabouço
científico-doutrinário. A ciência progredia em se comparando com esse ponto da
Uranografia. Contudo, em nenhum momento o erro constante no capítulo sobre a
Uranografia é algo que comprometa o conteúdo doutrinário ou que invalide o
trabalho de Allan Kardec. A ciência materialista descobriu algo que não havia
sido percebido pela Ciência até então divulgada na época de Allan Kardec. Em
pouco tempo depois uma evidência se estabeleceu, do ponto de vista material. No
que diz respeito ao aspecto moral não há absolutamente nada que comprometa a
obra de Allan Kardec.
Após
esta breve exposição, cabe citar o que Allan Kardec já havia falado sobre esse
ponto:
“Caminhando
de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se
novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer,
ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”
(Capítulo
I, Caráter da Revelação Espírita, item 55)
O
apontamento trazido a respeito da Uranografia, ao ser atualizado para
entendimento do aprendiz, em absolutamente nada afeta o edifício doutrinário.
Acontece como previsto por Allan Kardec: existem dois satélites em Marte, logo,
a fala do Espírito Superior Galileu representa tudo o que a Ciência conhecia no
tempo de Allan Kardec.
A
partir desse ponto, pode-se inferir ainda que, para estudos futuros, cabe
analisar outros possíveis erros e cruzar as informações com erros morais.
Porque nesse momento, nossa tese é de que só poderia classificar um erro como
doutrinário, se ele afetar alguma estrutura do edifício moral doutrinário, do
contrário são erros que a Ciência Espírita entende serem possíveis e que em
nada compromete a estrutura doutrinária, até porque, a doutrina é dos
Espíritos. Nem nas obras de André Luiz, afinal, o nó górdio mostra que a vida
no Plano Espiritual possui capilaridades muito mais engenhosas do que julga a
nossa forma de estudar temas complexos, enquanto encarnados.
Por
fim, mas não menos importante, a tentativa de desmistificar a respeito de erros
em temas doutrinários passou por esclarecer que há necessidade de avançarmos a
maneira como estudamos e acima de tudo, compreendermos que o estudo principal
da Doutrina Espírita, embora utilizando métodos e outros recursos científicos,
seu sentido primário será sempre o sentido moral. Estudemos sem pré-conceitos
para aprendermos e nos tornarmos seres humanos melhores!

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